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"Cheias de Charme" foi a primeira novela do século 21


Penha (Thaís Araújo), Rosário (Leandra Leal) e Cida (Isabelle Drummond) em "Cheias de Charme"F5

Macaco-pintor, prédio falante, mulher-robô: nos últimos anos, o horário das 19 na Globo se prestou a todo tipo de maluquice, na tentativa de segurar um público jovem cada vez mais atraído pela internet. Não deu muito certo. Os índices de audiência caíam a cada novela, e a repercussão mais ainda.

Até que "Cheias de Charme" estreou em abril passado e o Ibope da faixa voltou a bater nos 30 pontos, marca que não atingia desde "Sete Pecados", em 2007. Por que tanto sucesso? Basicamente, por duas razões.

A primeira foi o acerto da trama principal. Os delírios das antecessoras de "Cheias de Charme" podiam até ser engraçados, mas não traduziam um desejo real do espectador. Ninguém sonha em ter um chimpanzé artista. Mas muita gente sonha em ficar famosa do dia para a noite.

Penha (Thaís Araújo), Rosário (Leandra Leal) e Cida (Isabelle Drummond) em "Cheias de Charme"
Assim como "Avenida Brasil" não deixa de ser uma versão contemporânea da história de Branca de Neve, "Cheias de Charme" é outra variante da Cinderela, o conto de fadas que mais gerou descendentes entre as novelas. Até mesmo o fictício bairro do Borralho, onde mora grande parte do núcleo pobre da obra, remete à princesa que perdeu um sapatinho de cristal.

Mas a grande sacada dos autores Filipe Miguez e Izabel de Oliveira foi adequar este arquétipo ao Brasil contemporâneo. As mocinhas de hoje não almejam apenas se casar e ficar ricas. Também é preciso vencer na vida por si mesmas. E, nesta era de culto às celebridades, isto quer dizer ser capa de revista.

A fama instantânea, a popularidade imediata, o reconhecimento dos fãs: "Cheias de Charme" soube dar forma a essa fantasia latente através das Empreguetes, as três domésticas que se transformam em ídolos da música popular.

A novela também usou e abusou de um dos temas recorrentes da teledramaturgia atual, que é a inversão de papéis entre ricos e pobres. Às vezes com humor, às vezes com uma pitada de ressentimento.

A segunda razão para o êxito de "Cheias de Charme" é a mais importante: foi a primeira novela da Globo que soube se espalhar por muitas plataformas, se libertando dos limites da telinha da TV. A primeira que parou de lutar contra a internet e aprendeu a usá-la a seu favor.

Os clipes das Empreguetes, Chayane e Fabian foram vistos milhões de vezes na rede. "Vida de Empreguete" tornou-se um hit de verdade, tocando nas rádios e ganhando remixes para as pistas de dança. Já se fala em CD e DVD só com os artistas imaginários da novela, que apareceram muitas vezes ao lado de artistas reais.

Estes novos produtos seriam só mais alguns das quase quatro de dezenas que "Cheias de Charme" originou. O livro escrito por Cida também será lançado na vida real. Assim como já existem artigos de limpeza, cosméticos, bijuterias e muito, muito mais, para a alegria da Globo Marcas.

Esta materialização de objetos inspirados pela ficção não é novidade: começou nos anos 80 (quem lembra do batom Boka Loka?) e chega até as tinturas de cabelo Monalisa. Mas nunca uma novela criou um universo paralelo tão grande e variado como o de "Cheias de Charme".

Será que essa bem-sucedida experiência multimídia vai se repetir com "Guerra dos Sexos"? Tenho lá minhas dúvidas. O "remake" de Sílvio Abreu é focado na classe A, e não sei se o embate entre homens e mulheres ainda faz sentido quando temos uma presidenta em Brasília. Mas "Cheias de Charme" abriu um caminho que não pode ser ignorado. O público já está no século 21 faz tempo: as novelas só estão chegando agora.
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