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Globo irrita elenco e autor de 'Império' ao cortar cenas de afeto entre homens

KEILA JIMENEZ
COLUNISTA DA FOLHA

Após beijos gays nas duas últimas novelas da Globo na faixa das 21h, os primeiro dias da trama de "Império" prometiam descabelar de vez a patrulha da moral e dos bons costumes. O novelão de Aguinaldo Silva estreou em julho com quatro homossexuais entre seus personagens.

Um deles, enrustido, é casado com uma mulher que aceita a situação. Ele é apaixonado por um jovem, ambos chantageados por um terceiro, um jornalista de fofocas.

Eis que surge um travesti, uma espécie de Vera Verão com sobrepeso, que dorme na mesma cama que a amiga curvilínea e sempre de baby-doll, vivida por Viviane Araújo.

Há ainda um romance entre um homem na faixa dos 50 anos e uma ninfeta, cenas de striptease masculino e um casal de pais cafetões que aliciam os próprios filhos.

Mas parece que a emissora voltou para o armário quando alguém gritou: "Cooortaaaaa!". A tesoura da Globo começou a atuar pra valer em "Império", antes e depois de os capítulos serem gravados. E a mutilação atingiu em cheio os personagens mais polêmicos e as cenas mais "calientes" da novela.

A Folha apurou que beijos gays, sexo, nudez e palavrões entraram na mira da turma do "melhor não", que passou a editar capítulos da trama, para surpresa do autor e do elenco, que reclamaram dentro do canal e nas redes sociais.

"Até [a novela infanto-juvenil] Chiquititas' tem mais sexo que Império'", cutucou Aguinaldo Silva no Twitter.

"Sem sexo não existem famílias", alfinetou, também no Twitter, o ator Alexandre Nero, que protagoniza a trama.

O veto a cenas é apoiado em pesquisas do canal que reforçam a presença de um público mais conservador entre a sua audiência no horário.

Procurada pela reportagem, a Globo disse que a edição das cenas é uma dinâmica regular realizada em todos os seus produtos. O elenco e o autor da novela também foram procurados, mas não quiseram se manifestar.

NÃO PEGA

Desde o famoso sumiço do beijo gay na novela "América" (2005), a audiência da Globo tem mostrado em pesquisas que não é contra a discussão de temas ligados às comunidades gays. O que não significa que esse público aceite bem as cenas de amor envolvendo pessoas do mesmo sexo.

Segundo fontes da emissora, a pesquisa de opinião feita com o público de "Império" mostra que os homossexuais da trama são queridos, mas o telespectador comum ainda não quer encarar cenas de beijos e "pegação" entre eles.

"A TV tem acompanhado as transformações da sociedade, mas não vemos o mesmo tratamento dado para os personagens heterossexuais, homossexuais e bissexuais nas novelas", diz Victor De Wolf, secretário-geral da Associação Brasileira de Lésbicas, Gays, Bissexuais, Travestis e Transexuais, a ABGLT.

Segundo Daniela Jakubaszko, autora de tese de doutorado na USP sobre a representação da masculinidade na telenovela, folhetins são feitos para dialogar com um público amplo e tentam se manter no "senso comum".

"É possível que, após o beijo gay, a emissora precise voltar ao diálogo com o segmento conservador. Um passo para frente, um ou dois para trás, e assim vamos avançando lentamente", afirma Daniela.

"A audiência masculina cresceu, e rejeitaria a novela por sempre mostrar beijos homossexuais, porque somos um país machista, certo?"

TESOURA

O casal Leonardo (Klebber Toledo) e Cláudio (José Mayer) gravou uma cena deitado em uma cama. Dias depois, a cena foi regravada com os dois em pé, bem distantes da cama.

Dois beijos entre Cláudio e Leonardo também foram censurados. Um deles foi filmado. O outro foi vetado antes mesmo da gravação.

Os stripteases de Robertão (Rômulo Neto) também estão na mira do canal. A direção pediu ao autor pegar leve na criação dessas cenas.

Cena em que Maria Ísis (Marina Ruy Barbosa) e José Alfredo (Alexandre Nero) apareciam enrolados em um lençol foi cortada. Há uma recomendação para que ela apareça menos de lingerie.


CORTES NA TELA
Casos de censura em novelas brasileiras

Vale quase tudo
"Vale Tudo" (1989) censurou cena em que o casal de lésbicas Cecília (Lala Deheinzelin; à esq.) e Laís (Cristina Prochaska) contava a Heleninha Roitman (Renata Sorrah) os preconceitos que enfrentavam

Religião controlada
O diretor Herval Rossano disse em entrevistas que a Record impôs censura religiosa a "A Escrava Isaura" (2004). Segundo ele, santos não podiam aparecer em cenas de igreja e cultos afro-brasileiros foram vetados

Caubóis sem beijo
O beijo entre Júnior (Bruno Gagliasso; à esq.) e Zeca (Erom Cordeiro), no último capítulo de "América" (2005), de Glória Perez, não foi exibido na hora H. Autora e atores reclamaram. A emissora admitiu o corte

Dois é demais
"Amor e Revolução" (2012), do SBT, mostrou o 1º beijo lésbico para valer em novelas, entre Luciana Vendramini (à esq.) e Giselle Tigre. Um novo beijo foi censurado, mas acabou no site do canal, que excluiu o vídeo

Gritos sem imagem
Em "Salve Jorge" (2012), Carolina Dieckmann gravou uma cena em que Jéssica era estuprada por Russo (Adriano Garib). Devido às imagens fortes, só os gritos da atriz e cenas dela chorando foram ao ar

Menos violência
A cena do estupro de Neidinha (Jessica Barbosa), exibida no capítulo de estreia de "Em Família" (2014), não foi ao ar na íntegra. Considerada "forte demais" pela direção da Globo, acabou sendo cortada na edição
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